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Hoje tem greve dos entregadores e você precisa participar


Nina Desgranges


Os entregadores de aplicativo organizaram a primeira greve nacional para hoje, primeiro de julho de 2020, e a sua participação é fundamental. Apesar de não ser a primeira manifestação da categoria, ela promete ser a maior até então, principalmente devido à pandemia, que expôs ainda mais a precarização desse serviço, fazendo com que muitos entregadores, antes ávidos defensores das plataformas, passassem a questionar sua própria subjetividade enquanto trabalhador de aplicativo (como detalhado no post “Peguei um Pedido Sinistro!”).

O surgimento do movimento Entregadores Antifascistas e da figura de seu fundador, “Galo” (isto é, Paulo Lima, entregador que viralizou após o Intercept compartilhar um vídeo seu onde denuncia as dificuldades de trabalhar para os aplicativos [1]) acabou ajudando a impulsionar as reivindicações nas redes sociais. As pautas da paralização nacional são: aumento do valor por Km rodado; aumento do valor da taxa mínima de entrega; fim dos bloqueios indevidos e reativação dos cadastros que foram indevidamente bloqueados[2].


O entregador é bloqueado, não sabe nem o porquê que isso aconteceu e eu já vi isso, tá? (...) O entregador envia um e-mail pro iFood e muitas vezes não tem retorno. E galera, só adiantando uma coisa sobre essa situação, sobre esse negócio de bloqueio indevido, seja lá de 48 horas, ou até encerramento da parceria, deixa eu adiantar uma coisa pra vocês: é chato? É, mas nesse caso aí, nos Termos de Uso do aplicativo tem informando que o entregador poderá ser bloqueado e poderá ter sua parceria encerrada sem aviso prévio, tá? Então não tem como tá exigindo isso deles porque, tá lá, tá lá falando, a gente concorda. Eu sei que é um negócio chato pra caramba, mas se a gente lê e concorda o que que a gente vai poder falar depois? Mas ainda assim não posso negar que é uma coisa bastante chata, já aconteceu comigo bloqueio de 48 horas, eu não soube o porquê e a única coisa que me restou foi esperar.” (Trecho transcrito do vídeo [i]) (Jeff Fernandes é um entregador de Recife que esperou 1 ano e nove meses para ter seu cadastro aprovado no iFood)


Essas empresas-aplicativo mobilizam os Termos de Uso para se eximir da obrigação de garantir direitos trabalhistas básicos, colocando os entregadores como “parceiros” e não empregados. Além disso, a autorização nos termos para bloquear os entregadores a qualquer momento, sem necessidade de explicação, faz parte de estratégias de gerenciamento do trabalho plataformizado.

Os entregadores pedem também o fim do sistema de pontuação e restrição de local da Rappi. As empresas-aplicativo fazem uso da pontuação e avaliação contínua dos trabalhadores – processo tido como “gamificação do trabalho” – para impulsionar a produtividade e fazer com que os trabalhadores respondam imediatamente às demandas do mercado (SCHOLZ, 2013; ROSENBLAT; STARK, 2016). A Rappi coloca “missões” a serem cumpridas pelos entregadores, que ao realizarem as tarefas, sobem de nível. Se o entregador não se engaja na plataforma, ou seja, se não fica online trabalhando, sua pontuação caí e ele para de receber pedidos, podendo ficar horas e dias sem receber nenhuma entrega.


Com o sistema de pontuação da Rappi, estamos sendo obrigados a trabalhar no fim de semana pra conseguir juntar os pontos pra trabalhar no resto da semana. A gente tem que poder escolher quando quer ligar o aplicativo e trabalhar!” (Instagram Treta no Trampo/@tretanotrampo)


Além disso, os entregadores pedem também seguro de roubo, acidente e vida:


Enquanto o aplicativo tá ligado, a gente tá trabalhando pra empresa, e os Apps precisam se comprometer com a nossa segurança caso a gente se acidente.” (Instagram Treta no Trampo/@tretanotrampo)


Contudo, o Termo de Uso imuniza o iFood dessa responsabilidade, transferindo todos os riscos e custos do trabalho para o entregador, de modo a se utilizar do discurso neoliberal de valorização da autonomia para obscurecer estruturas hierárquicas de controle e exploração do trabalho:


“2.2.3. OS ENTREGADORES RECONHECEM E CONCORDAM QUE O IFOOD NÃO É UMA EMPRESA ESPECIALIZADA EM TRANSPORTE OU OPERAÇÃO LOGÍSTICA, CABENDO AO IFOOD TÃO SOMENTE DISPONIBILIZAR UMA PLATAFORMA TECNOLÓGICA QUE POSSIBILITA A COLABORAÇÃO ENTRE OS QUE DESEMPENHAM ATIVIDADES RELACIONADAS – ASSIM, A ATIVIDADE DE ENTREGA, BEM COMO QUAISQUER PERDAS, PREJUÍZOS E/OU DANOS DECORRENTES OU RELATIVAS A TAL ATIVIDADE, SÃO DE RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DOS ENTREGADORES.” (Termo de Uso, iFood, 2020)


Apesar do iFood ter anunciado um fundo solidário de dois milhões de reais para ajudar os entregadores na pandemia[3], a greve reivindica o auxílio-pandemia. Os entregadores pedem maior distribuição de EPI’s e licença para os que ficarem doentes. O entregador Ticoloko Motoka, cuja jornada durante a pandemia é analisada em post anterior do blog, denuncia a falta de veracidade da campanha:


Mas se você for puxar num vídeo passado meu, logo quando começou essa pandemia e tal, eu avisei mano, eu avisei, eu falei: meu é a hora de parar, é agora, não vamo querer dá uma de herói da sociedade, né mano. Eu sei que a sociedade não tem nada a ver, né, a população não tem nada a ver com isso, mas não vamo querer dá uma de herói porque os aplicativo vai abusar, porque vai ter um monte de gente desempregada que vai pegar sua moto, sua bicicleta, vai encher a própria forma e com isso o aplicativo vai diminuir as taxas. (...) E o que aconteceu? Tá aí ó, os aplicativos pagando o que quer, fazendo o que quer com o motoboy, não dá equipamento de segurança. O iFood faz aquela propaganda maravilhosa, bonita né, que passou na Globo lá: “Ah tamo distribuindo álcool em gel, tamo distribuindo isso...” Mentira! Todo mundo sabe que o iFood tem parceria com a Globo né, tanto é que o iFood investiu milhões aí em propaganda lá no Big Brother né, entendeu? Então eles fazem aquela propaganda maravilhosa, que tá cuidando dos motoboy e tal, que é isso e aquilo... Puta papagaiada porque na verdade não acontece nada disso.” (Trecho transcrito do vídeo [ii])


Ticoloko trabalha como motoboy desde antes do surgimento dos aplicativos de delivery. Segundo ele, nessa época as greves tinham mais eficácia, pois era mais fácil conseguir a adesão de todos:


Se eu ver que todos os motoboys parou mesmo, eu vou parar. Agora não adianta meia dúzia de motoboy parar e 30 mil motoboy continuar rodando, aproveitar a oportunidade “ah ta todo mundo parado, eu vou ganhar milhões agora...” Não, porque o aplicativo é pilantra, o aplicativo já tá se preparando, eles sabem que vai ter essa manifestação. Que que o aplicativo vai fazer? Vai jogar promoção. Vinte reais pra entrega, a mais, né? Quinze. A cada dez entregas vai ganhar 100, 200 real. (...) E tem muito motoboy que infelizmente vai agarrar, porque eu vou falar a real pra você, mano: não tem como mais confiar em paralização, mano. Motoboy não é mais unido que nem era antigamente. (...) Antigamente você falava de paralização os caras tudo parava mesmo, entendeu? Hoje em dia não, hoje em dia você fala de paralização, por trás de você tem uns caras falando assim: “Não, beleza, deixa a galera parar porque eu vou ganhar, né mano. Vai ficar mais entrega pra nós, né mano.” (Trecho transcrito do vídeo [ii])


“Jogar promoções” é uma das várias estratégias das empresas-aplicativo para desmobilizar as manifestações, de modo a evitar que muitos entregadores parem de trabalhar, o que tem se mostrado efetivo, principalmente se levarmos em consideração o nível de precariedade desse trabalho, onde cada valor extra faz muita diferença para renda dos entregadores. Além disso, a falta de vínculo empregatício reforça o discurso neoliberal, valorizando o empreendedorismo, servindo como artifício para a produção de “chefes de si” totalmente independentes e autônomos (DARDOT; LAVAL, 2016). Assim, a construção de movimentos e ações coletivas é deslegitimada, afinal, trabalhar para os aplicativos é “uma escolha individual”.

No vídeo promocional da campanha “I’M A LOVER”[4] do iFood, criada para descrever a cultura da empresa, o gestor de Digital Transformation diz que sentiu o valor “all together” no dia em que houve uma ameaça de greve dos entregadores e eles conseguiram se mobilizar para impedir que a mesma acontecesse:


“Tava uma ameaça de greve e eu vi a equipe inteira se mobilizando. Desde o time de comunicação, jurídico, finanças, tecnologia… E em questão de horas a gente conseguiu desembaraçar esse problema. A solução tava entre todos os participantes.” (Trecho transcrito do vídeo [iii])


Galo já havia denunciado que o iFood rastreia os entregadores que participam das manifestações para bloqueá-los da plataforma depois. A assimetria de informação e a gestão algorítmica do trabalho de plataforma produz novas dinâmicas de precarização e controle, tornando a greve de hoje uma conquista ainda mais difícil. Jeff Fernandes fala da tentativa dos entregadores mais engajados de convencer os demais a aderirem à greve, porém, teme os desdobramentos da mesma:


“Se houver uma represália por parte dos aplicativos, e esse entregador que não queria aderir a greve, perder a conta, por exemplo, quem é que vai se responsabilizar por isso?” (Trecho transcrito do vídeo [i])


Além disso, os entregadores OL, isto é, contratados por um Operador Logístico[5], estão sendo ameaçados de demissão caso participem da greve[6], pois apesar de serem contratados, não possuem carteira assinada.


(Recorte de captura de tela do instagram @tretanotrampo. Acesso em 1 de jul. de 2020)


Mesmo que em situação de assimetria de poder, os entregadores de aplicativo criam redes de apoio e lutam por melhorias. Como nem todos os entregadores vão poder aderir à greve, é fundamental que você, consumidor, NÃO faça pedidos nos aplicativos de delivery, avalie com uma estrela esses apps na PlayStore e App Store, e divulgue a luta, compartilhando as hashtags #ApoioBrequedosApps #BrequeDosApps, e seguindo perfis como @entregadoresantifascistas, @tretanotrampo, @galodeluta. Ticoloko Motoka mandou o papo:

E você aí que é cliente, ajude nós né mano. Porque você que tá aí na sua casa, protegido né mano, fica em casa. (...) Você tá aí seguro, mas nós aqui não tamo, entendeu? Nós aqui na rua, nós tá enfrentando sol, chuva, motorista cabaço, tá enfrentando trânsito, tá enfrentando corona vírus, entendeu? Pra poder levar o pedido até você. Então tenha compreensão, dia primeiro aí, família, você que é cliente, evite de tá pedindo aí nos aplicativos, vamo dá uma resposta pros aplicativos aí, mostrar pros aplicativos aí que vocês clientes, né meu, tem um pouco de compaixão pelo ser humano, pelo próximo né mano.” (Trecho transcrito do vídeo [ii])

*Nina Desgranges é graduanda em Ciências Sociais (UFRJ) e pesquisadora do Laboratório de Estudos Digitais (IFCS/UFRJ) e desenvolve, há mais de um ano, uma pesquisa a respeito de aplicativos de entrega, onde aborda questões como capitalismo de plataforma, empreendedorismo de subsistência e subjetividade neoliberal através do estudo, sobretudo, de canais de YouTube de diversos entregadores, sob orientação do Professor Dr. Bruno Cardoso (IFCS/URFJ).


1. Vídeo do Intercept sobre o entregador antifascista Paulo Lima: https://www.youtube.com/watch?v=iTVhpgxH8dY. Acesso em: 01 de jul. 2020

2. Para mais informações sobre as pautas da greve ver: https://www.instagram.com/tretanotrampo/ https://www.instagram.com/entregadoresantifascistas/

3. Sobre fundo solidário iFood ver: https://entregador.ifood.com.br/fundos-perguntas-e-respostas/ . Acesso em: 01 de jul. 2020

4. Cultura I’m a Lover: https://www.ifood.com.br/carreiras/im-a-lover. Acesso em 15 de jun. 2020.

5. Os entregadores de iFood se dividem em três categorias: Nuvem, OL e Fixo. O entregador Nuvem é o autônomo, determinando individualmente quanto tempo permanecerá logado ao aplicativo. O Fixo é aquele entregador que trabalha realizando entregas exclusivamente para algum restaurante. Já o OL, por sua vez, é contratado por um operador logístico ou por uma empresa especializada em entregas, devendo trabalhar em turnos específicos conforme acordado em contrato e recebendo uma quantia garantida por turno trabalhado, e não um valor individual para cada corrida realizada (como ocorre com Nuvens e Fixos).

6. Para mais informações das ameaças dos OL ver: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/07/01/pelo-whatsapp-prestador-do-ifood-ameaca-entregador-que-aderir-a-greve.htm. Acesso em 01 de jul. 2020

Vídeos:

[i] “RESPOSTA DO IFOOD, UBER E RAPPI SOBRE A PARALIZAÇÃO DOS ENTREGADORES DO DIA 1 DE JULHO” Canal Jeff Fernandes. 30 de jun. de 2020. https://www.youtube.com/watch?v=jis0GkEkuIM

[ii] “GREVE NACIONAL DOS ENTREGADORES” Canal Ticoloko Motoka. 17 de jun de 2020.

https://www.youtube.com/watch?v=cYzFM7g9MNU&list=WL&index=102&t=588s

[iii] “Cultura I’m a Lover” Canal iFood. 20 de set de 2019.

https://www.youtube.com/watch?v=1ncoWGkEJ1o&list=PLw4PypEm_0gyleOglI4HAYbUTM1s3IDM6&index=8&t=0s

Referências Bibliográficas:

DARDOT, Pierre & LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo; Boitempo. 2016.

ROSENBLAT, Alex.; STARK, Luke. Algorithmic labor and information asymmetries: a case study of Uber’s drivers. International Journal of Communication, v.10, p. 3758-4784, 2016.

SCHOLZ, Trebor. (Org.). Digital labor: The internet as playground and factory. London: Routledge, 2013.

IFOOD. (2020) Termos e Condições de Uso iFood Para Entregadores. <https://entregador.ifood.com.br/termosdeuso/>. Data da versão: 17 de março de 2020.

Arte da capa por Antonia Pellegrino.

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